Lembro-me de poder sonhar….


Lembro-me de poder sonhar….

Lembro-me quando contava as estrelas esperando o amanhecer
encostado à janela embaciada e descalço no soalho envelhecido
e iluminado pelo velho castiçal companheiro do poeta inspirado.
Os pardais começavam a namoriscar e o galo cantava envaidecido
pela pintura que o sol lhe oferecia em tons amarelo avermelhado ...

Silenciosamente abria o ferrugento trinco da porta rigente e fria
e secretamente corria pelas ruelas encostado ao muro branco da geada
onde me cruzava diariamente com Xico que varria a velha calçada
outrora castigada pelos cascos da real cruzada da nossa monarquia…

Todo o teatro da minha infância voava em busca do sonho e da ilusão
enquanto as crianças disputavam a bola e a boneca joana migalhas,
a boneca da Rita…aquela de cabelos em pé, olhos de gato e cor de café…
Enquanto isso eu ficava sentado na muralha contando as fogalhas
que a brancas chaminés embelezadas a cal cuspiam como um vulcão…

Lembro-me que atrasado para a escola corria, corria de pé em pé
Atravessando todo o teatro envolto pelos zumbidos do amola tesouras,
que segundo o ditado adivinhava chuva nas planícies douradas
onde nos meus sonhos corriam cavalos das invasoras tropas mouras…
Do meu quintal... Minha mãe inquieta abanando a cabeça de mãos cruzadas
esperava eu baixar da ilusão... sem saber mais como me reter
sobe a batuta da professoinha…a estagiária dos olhos de azeitona
que insistia que os cavalos eram a matemática que tinha que aprender ...

Lembro-me dos desenhos a musgo nos telhados de telha Lusa
por onde os gatos malteses corriam atrás de minha saudade,
da minha infância de sonho nos duelos pela Princesa Musa...

Lembro-me de sair da escola e voar cruzando a praça até ao ferreiro,
Donde as ferraduras batidas na minha imaginação se tornavam espadas
como orquestras a tocar no ferro forjado nas lâminas afiadas
num duelo onde abanava pulando a desgastada e comprida vara de marmeleiro
que empunhava enquanto homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

Lembro-me do sol se esconder no mesmo muro branco onde os estendais
recolhem as vestimentas reais dos meus sonhos interrompidos,
e desço do alto dum cavalo onde reinei como Príncipe e muito mais…
Acariciado pelo abraço fraterno olhava os bandos de pardais adormecidos ,
e adormecia sorrindo no colo quente de quem vivia para me amar
e permitia o pequeno Príncipe sonhar…sonhar…sonhar...

Robert
















6 comentários:

Flor Morena disse...

Sem comentário... biografia precisa... bjos da Flor.

Juliana Castelar disse...

Não há nada melhor que o colo da mamãe depois de um dia de "batalhas"..rs o meu me pede até pelo celular, com esse biquinho lindo... Mamanhêêê! Colho! Lindo! Um veradeiro sonho! Beijos

Mel disse...

É o que faz a nossa personalidade,o que forma o nosso caracter...são essas lembranças doces ou amargas...O que fizeram de nós enquanto éramos crianças...por isso o não julgamento do ser humano é importante...
O que te deram...é o que você devolve ao mundo...

Beijos de Mel!

Denise Matos disse...

Essa poesia ficou lindíssima...
Uma mistura de bom gosto na escolha das palavras e um sentimento lindo vindo de vc ao qual deixa claro a sua sensibilidade.
Sempre um prazer ler-te. Aplausos e bjos...

Nalva disse...

Você ainda é o Pequeno Príncipe...o cultivador,o que ama sua rosa...O que tem uma visão de amor pelo uniVERSO,capaz de Cativar até uma raposa...com a poesia!

Essas lembranças dão uma saudade enorme...Principalmente de nós, do que fomos,da proteção que tínhamos...uma linda poesia.

Um beijo!

Anónimo disse...

amo a sua infância, vendo você menino, já o poeta que me faz conhecer um pedacinho neste tempo que nem é meu....é seu!
você nasceu sonhando:minha mãe dizia-me sempre assim..e nunca parei de sonhar

..sonhar poeta sonhar para continuar apreciando o que da vida poucos sabem, ou não vêem ...R

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